terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

XX Encuentro Internacional de Poetas y Payadores

     O Pajador brasileiro, Paulo de Freitas Mendonça, atua novamente no Chile. Desta vez, Mendonça vai estar representando o Brasil no XX Encontro Internacional de Poetas e Payadores El Rincon 2012. O evento presta uma homenagem ao importante poeta Salvador Pérez Medina "Salvita" e reúne poetas e pajadores daquele país, a exemplo de Juan Carlos Bustamante, Francisco Astorga, Myriam Arancibia, Arnoldo Madariaga, Domingo Pntigo e Elias Zuñiga. A atuação internacional deste ano está a cargo do pajador do Brasil, Paulo de Freitas Mendonça, que tem participado de encontros internacionais no Chile e noutros países americanos e europeus.
      Paulo de Freitas Mendonça possui seis discos de pajadas, diversas participações em discos de pajadores internacionais e com importantes atuações com os mais reconhecidos improvisadores do mundo. É também o autor do livro Pajador do Brasil - Estudo Sobre a Poesia Oral Improvisada, um dos mais completos estudos sobre o tema da improvisação mundial.
     O Encontro Internacional de Poetas e Pajadores de "El Rincon" acontece nos dias 02 e 03 de março, a partir das 20h.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Capital recebe lançamento do 28º Reponte da Canção


     

     A Prefeitura Municipal de São Lourenço do Sul e a Tabla Produções Artísticas realizam na noite de 29 de fevereiro, no Bar do Marinho em Porto Alegre, o lançamento da 28a edição do Reponte da Canção, tradicional festival nativista gaúcho.
     Na apresentação do evento, que ocorre em São Lourenço do Sul de 08 a 11 de março próximo, estarão representantes do festival, músicos e autoridades.
Participarão do Reponte músicos regionais de várias partes do Estado, em 16 composições divididas entre as linhas livre e campeira, são 14 músicas selecionadas na etapa estadual e 2 vencedoras da etapa local. As canções classificadas para a fase final do festival, entre mais de 500 inscrições, já podem ser conhecidas no site http://repontedacancao.blogspot.com/.

O QUE: Lançamento do 28º Reponte da Canção e Lançamento do CD e DVD da 27ª edição
ONDE: Bar do Marinho, Porto Alegre, Rua Sarmento Leite, 964 Cidade Baixa
QUANDO: 29/02/2012 – Quarta-feira
A entrada é gratuita

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Gaúcha Praiana de Aureliano de Figueiredo Pinto



Da cidade do Rio Grande,
adolescente se viera
às solidões missioneiras,
onde ficou a morar,
com pobrezas e trabalhos,
nunca mais poder voltar.
E, sempre  olhando as coxilhas,
dizia aos netos e filhas:
- Quando olho para as coxilhas,
tenho saudades do mar...

E, já com quase noventa,
na solidão missioneira
contava do mar em festa:
- A praia de povo, assim!
Barões de fraque... Alamares...
e o mar, um campo sem fim,
brilhando num resplendor!
Bandeiras... hinos... fanfarras...
Porque vinha entrando a barra
a Escuna do Imperador!

Torpedeiras e corvetas,
couraçado e cruzador.
Popas... proas... e escotilhas
quando ela se punha a explicar.
Dando o vento nas flechilhas
as onduladas coxilhas
são como as ondas do mar...

Quando a grande lua cheia
no escurecer vinha vindo,
era um navio do mar alto,
bordejando, a aproximar.
‘Stava  o Prático pedindo
para na barra aportar.
- A pobre! Por tanto tempo
no exílio de terra dentro,
com a nostalgia do mar.

Quando as carretas toldadas,
cortando as largas campanhas,
vinham a descarregar,
ela dizia: - No cais
é assim que os navios encostam,
com cantigas nas descargas
das cousas que vem do mar.

Viu generais e almirantes!
Gentes de todas as terras,
no velho porto baixar.
E as gurizadas gostavam
desses contos que bisavam:
- Vozinha... conta do mar.

O mar, então, era o mundo,
novo e estranho, que atraia
e fascinava os gauchinhos,
fazendo a velha falar.
E eram animais medonhos
que os assustavam nos sonhos,
sonhando as lendas do mar.

Tinha cavalos-marinhos
que não se podem encilhar.
Touros com aspas de prata
que não se podem laçar.
E há uns vaga-lumes nas águas
que não se podem pegar.
Sereias de voz macia
para os marujos tentar.
Praias de areia alvadia
para as crianças brincar.

Suas pupilas aflitas
eram duas estrelitas
boiando na água do mar.

Quando, em manhã luminosa,
ela deixou de falar,
aos gestos pediu janela
para a campanha ainda olhar.

Depois inclinou a fronte
e parou de respirar,
em frente ao grande horizonte
com céu no campo a encostar.

E lá se foi - pobrezita!
Naufrágio de um sonho lindo.
Barquita se despedindo
com uma saudade a acenar.

Ou como uma ave que emigra,
retardatária seguindo,
para sempre sumindo
sobre as lonjuras do mar...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma Noite de Agosto de Eron Vaz Mattos




Que noite braba lá fora ...
Releio versos antigos,
delatores de outros tempos,
nos quais a alma bordava
- em tecidos de ilusões -
sonhos em lindos matizes
que pareciam tão fáceis
de pateá-los de à cavalo.

Pico um naco devagar
e o sentimento de xucro
me faz crescer a garganta!
Restevas de mocidade
nas dobras do pensamento!

O meu cavalo arrepiado
- sob este teto de zinco
que deixa escapar goteiras -
as orelhas de ouvir longes
e uma pata descansada,
balança a linda figura
na sombra que a lamparina
- movida ao sopro das frestas -
esparrama no galpão.

Alguns jujos pendurados
perto à cambona furada
onde a corruíra fez ninho!

O cusco procura a volta
por um lado, para outro
- dá uma puchada na terra -
de um buraquito redondo
- que ele abriu perto do fogo -
e se enrodilha de novo,
como quem vira os pelegos
e pega a volta do poncho
se acomodando no catre.

O vento insiste, forceja ...
- um trago forte, outro mate -
e uma pitada mais lenta!

Este meu poncho judiado
- um companheiro de sempre -
e o par-de-botas molhado
- sola queimada do estribo
e dos aros das esporas –
fazem parte do cenário
que o mundo bruto, lá fora,
reproduz em preto e branco
na tela humilde e soturna
estirada em quatro esteios
de cerne de coronilha.

Junto ao tição de espenilho
a cambona ensaia um canto
como pedindo silêncio!

Na velha trempe de arame
- meio cilhona do fogo -
o sangrador vai tostando
- como um remendo de morte
na prova da estupidez –
goteando lentos protestos
como se a dor respingasse
- em lágrimas, pela vida –
abrindo fumos de luto
no frágil painel de cinzas
entre o rubor dos tições!

Quedou-se muda a guitarra
ao recostar nos arreios
sua alma de vidala;
Pois nos momentos de prece
somente a quietude fala!

Pai nosso que estais no céu
precisai vir aos galpões !

Nestes silêncios que tenho
fico granando esperanças
embonecadas há tempo
nas hastes do coração;

Pois quem vive de à cavalo
e tem apenas domingos,
precisa enganar tristezas
multiplicando as pisadas
das quatro patas do pingo.

Quem pouco entende
este mundo,
cria basteiras em si;
e procura arrinconar
- nas emoções contrariadas –
amenidades vividas
- para iludir a razão –
como quem usa um pelego,
que foi sovado a capricho,
pra moldar bem os arreios
quando se aperta o cinchão.

A chuva timbra o agosto
com ganas de arrasar mundo,
e os cinamomos corpeam
como quem tenta escapar
de punhaladas que o vento
- com planchaços de friagem
lhes acaba de acertar!
A casuarina repete
o que aprendeu com os ventos
em consertos milenares;

Qual um músico no escuro
- com dedos encarangados -
sóbrio, nostálgico e só,
tocando em flauta dolente
a melodia que o tempo
escreveu na partitura
alongando a nota dó!

Pai nosso que estais no céu,
fazei voltar as estrelas
e as luas brandas, inteiras
-Refletidas nos serenos –
entre os mágicos aromas
que a primavera semeia
nos pastiçais destes campos.

Trazei de volta a alegria
dos cardeais abrindo o canto
entre galhos florecidos…
e a ingenuidade festiva
dos cordeiros retoçando
sobre os trevais das ladeiras…

Que noite braba lá fora…
componho o mate e prossigo
mirando a vida, de em pêlo,
-tranquear em rumo confuso-
no lombo duro do tempo!